Homicídio por disputa de águas na Serra da Lousã inspirou filme e música popular
       
Publicada a 29 de março de 2018 às 10:7h
Uma disputa de águas de rega esteve há 40 anos na origem de um homicídio, na Serra da Lousã, que inspirou uma canção de sabor popular e um filme do realizador João Mário Grilo.
 
Era um dia do verão de 1978, estava um calor intenso na Cerdeira, concelho da Lousã, e o velho Constantino Lopes, solteiro, andava incomodado pelo facto de as águas de uso comunitário faltarem na hora que lhe cabia por direito ancestral.
 
Nessa altura, na sequência de um longo processo de desertificação, que se acentuou após a II Guerra Mundial, apenas três pessoas moravam naquele lugar agropastoril: o próprio Constantino e duas vizinhas, com as quais mantinha uma coabitação difícil.
 
Um dia, quando mais uma vez a água não desceu pelo regato para irrigar a sua terra, o homem (que também zelava pelas propriedades de serranos ausentes em Lisboa e além-mar, sobretudo no Brasil e nos Estados Unidos) viu-se envolvido numa altercação que acabou da pior maneira.
 
Transtornado com o repetido roubo de água e com as ofensas verbais do momento, Constantino perdeu a cabeça e, com um sacho, desferiu um golpe fatal na vizinha de quem há muito se queixava.
 
Sem antecedentes criminais, Constantino “era um homem bem formado”, disse à agência Lusa o advogado Amílcar Sandinha, que há 40 anos o defendeu em julgamento.
 
“A coexistência com as vizinhas não era pacífica. As pessoas estavam noutro mundo e viviam de costas voltadas”, recordou.
 
Nessa época, “a água era um bem precioso disputadíssimo” nos meios rurais, em Portugal, “mas hoje esses problemas não são tão frequentes”, sublinhou o causídico, que aos 82 anos continua a exercer a profissão.
 
Constantino vestiu o seu melhor fato e desceu a montanha, a pé, para se entregar na GNR. Viúva, a irmã da vítima foi acolhida na Santa Casa da Misericórdia da Lousã, no distrito de Coimbra.
 
Sem habitantes, a Cerdeira morreu igualmente nesse dia fatídico, para renascer mais tarde, com outros residentes, como a escultora alemã Kerstin Thomas, que tem assumido um papel decisivo no novo ciclo de vida da aldeia, agora assente na cultura, no ambientalismo e no turismo.
 
O Tribunal da Lousã condenou Constantino a 14 anos de prisão, mas o camponês foi poucos anos depois devolvido à liberdade, tendo regressado à Cerdeira, onde morou sozinho até à chegada da família germânica, em 1988.
 
O guarda-florestal Augusto Simões dedicou-lhe o poema “Celestino”, sem nunca dizer ao amigo que eram versos em sua homenagem.
 
Com música de Ramiro Simões, a canção passou a integrar o reportório do grupo “Novárvore”, nos anos 80 do século XX.
 
“Ainda hoje, muita gente continua a pedir-me o ‘Celestino’ nos espetáculos e encontros cá na terra”, disse o cantor.
 
Kerstin Thomas depressa ficou amiga do vizinho. “Ele não era um criminoso, era uma excelente pessoa”, declarou à Lusa.
 
A artista contou que “Constantino sofreu muito” com o desfecho da disputa violenta com a vizinha e informou logo os novos moradores que teve “um azar na vida”.
 
“O meu maior fascínio, quando aqui cheguei, foi a água” da ribeira da Cerdeira, em quantidade e qualidade, disse.
 
Kerstin é uma das organizadoras do programa cultural “Elementos à Solta”, que se realiza na aldeia desde 2006.
 
A 13.ª edição da iniciativa, em maio e junho deste ano, é dedicada à água.
 
“É um luxo ter acesso a uma água com esta qualidade”, enfatizou. A par de outros lugares serranos, a Cerdeira integra a rede turística Aldeias do Xisto.
 
Em 1992, João Mário Grilo rodou na Serra da Lousã o filme “O Fim do Mundo”, baseado nos acontecimentos protagonizados por Constantino, em 1978, com o ator José Viana (Augusto Henriques) no principal papel.
 
O montanhês temia “recordar aquilo tudo outra vez”, confirmou Kerstin Thomas.
 
José Viana decidiu não conhecer o homem, como afirmou em entrevista à Lusa durante as gravações, na Serra da Lousã, há 25 anos.
 
Do mesmo modo, Constantino Lopes detestava que lhe falassem do filme: águas passadas não movem moinhos.
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